Tive medo de sair e quando cheguei, não consegui ficar (aqueles dias em que não se está bem em lado algum, não há conforto em ir, nem em chegar, em ser. Respirar é aguentar...).
A cura já tem barbas: acordo, enfrento o peso e passo os dois meses seguintes a perder o que tenho a mais. E pelo menos então tenho o meu sentido de missão, o único que me faz manter o quarto arrumado, acordar às 8h, produzir, tomar banho com frequência superior à semanal, não fugir dos outros, com quem viverei, para sempre...
Acabam as idas ao supermercado e a comida debaixo da cama, das roupas, nos armários da casa-de-banho... acabam os ataques à despensa, ao frigorifico...As pratas nos sapatos, os pães nos bolsos de calças de fato-treino que não vão à máquina há meses... Volta o tempo de repor as poupanças que estoirei, como se pudesse... Não posso, mas permito-me. O meu estado compulsivo é de completa auto-condescendencia e irreflexão. Não me atrevo a fazer a conta, mas certamente, em 365 dias, milhares de euros...
Passo o pano, superficie que conjuga angulo e polimento, menos kg, mais confiança, que desaparece no segundo depois de ter subido à balança, mas que vale pelo segundo anterior em que foi minha, fui eu, "é meu"!
«Se eu fosse magra» transforma-se em quando «qando eu for magra», porque de tudo posso ter desistido na vida, mas disso não... antes dizia que ia morrer a tentar. Agora sei que viverei a tentar. É uma escolha.
Não penso muito nas consequências de manutenção deste padrão polar que me tirou e deu, à sua maneira, como qualquer caminho que se percorre em detrimento de outros...
A leve ideia, de há 8 anos, quando achei que me queria «tratar» é uma memória longinqua de adolescente dividida entre a vida com a doença e a morte sem ela. Já não tenho grande interesse nas consultas que foram muito importantes, mas que serviram o seu fim. Melhorei. Já não deprimo.
Houve avanços que me facilitaram a vida na conclusao do curso, na média do mestrado, na entrada no mundo do trabalho...mas nada de magreza certa. E eu acho que já a mereço, porque de tudo farei para a merecer.
Passaram-me a tristezas de fim do mundo, estou no mundo. 25 anos.
Não me interessa se valeu a pena.