Tinha um cabelo de fazer inveja. De resto, o seu aspecto era cómico.
Não parecia homem nem parecia mulher; parecia alguém mascarado e, não só por isso, dava nas vistas.
Não queria ser discreto, falava mais alto do que era necessário; exibia a figura, como adolescente, acabada de se descobrir...
As unhas, cor-de-lilás; os jeans, justos ao corpo; a blusa, bonita e caída.
Era um homem bonito, aliás. Magro, alto, definido, com feições correctas, rosto angular, característica tão tipicamente masculina. Não queria esconder-se e fazia por ser visto, com uma confiança que oscilava entre fingida e desejada...
Ninguém se incomodou, entre a indiferença e a tolerância.
Acho que ele se sentia mais mulher do que alguma vez me sentirei...seja lá o que isso for...Aquilo que ele traz por fora é o que eu sinto por dentro: alguém mascarado...
quarta-feira, 27 de junho de 2018
quinta-feira, 21 de junho de 2018
repeat
Não come, come, descome, anda, laxante, lesão, o pé, a anca, as costas, anti-inflamatório, analgésicos, com receita, sem receita. Estômago que se queixa. Enfartamento, fome, enjoo, náusea, vómito, hipoglicemias, Bradicardia, unha encravada, unha preta, Coimbra nocturna, caimbra diurna,
Saturação, pensar em círculo, gastar palavras que repito. Medo, cansaço, medo, dito, sentido, gasto, nunca extinto...
Que desgaste...
Não luto, mas resisto. Depois cedo, depois mudo, agora sim, agora nunca, agora...nim.
Sono sem vontade de dormir, acordar para fazer 25km. Calor, mochila, eliminar as banhas, repor a ordem no universo (o mais pequeno e narcisico, cápsula cilíndrica com 47 de raio para a anca ter lugar...).
Preparar-me para nunca estar pronta, recomeçar, sem angústia, mas com pressa, que ninguém me obriga, mas o tempo é tempo para o excesso se espalhar no corpo é preciso de dissipa-li o quanto antes, sem dar tempo de ajustamento, sem que a barriga redonda se transforme em cm/s distribuídos.
Amanhã vai haver mais de vida, não me deixo vencer assim..,
Saturação, pensar em círculo, gastar palavras que repito. Medo, cansaço, medo, dito, sentido, gasto, nunca extinto...
Que desgaste...
Não luto, mas resisto. Depois cedo, depois mudo, agora sim, agora nunca, agora...nim.
Sono sem vontade de dormir, acordar para fazer 25km. Calor, mochila, eliminar as banhas, repor a ordem no universo (o mais pequeno e narcisico, cápsula cilíndrica com 47 de raio para a anca ter lugar...).
Preparar-me para nunca estar pronta, recomeçar, sem angústia, mas com pressa, que ninguém me obriga, mas o tempo é tempo para o excesso se espalhar no corpo é preciso de dissipa-li o quanto antes, sem dar tempo de ajustamento, sem que a barriga redonda se transforme em cm/s distribuídos.
Amanhã vai haver mais de vida, não me deixo vencer assim..,
terça-feira, 12 de junho de 2018
ambiguidade
Ontem arranquei a "compensação" a ferros. Tinha fome, maior que o habitual, insistente, carente, chata. Tinha uma fome que implorava para não ser ignorada, o que me irritou ainda mais e me fez resistir, ainda mais, a honrá-la...
Se havia dia para comer, teria sido ontem.
Mas ontem passou e eu não comi mais do que era permitido...
E hoje a fome é normal, daquela com que é possível conviver; é uma fome resignada, diz olá, não espera resposta. Como criança que sabe que não será consolada, não faz birras, não chora e não pede mais do que espera ter...
Lá andei, não tanto quanto queria, mas muito mais do que esperei que conseguisse...
Ontem esta vida que escolhi foi particularmente dura: não me apetecia fazer o exame em jejum, não me apetecia andar km e km com a mochila pesadissima, o calor, a fome, tudo aquilo que sabia que não era para acabar ali, mas para continuar "para sempre"...
Custava-me o cansaço, tudo me doía. E permiti-me sentar... E quando me sentei, chorei as lágrimas que a fluoxetina deixa (poucas). E não passou...
Mas hoje acordei com medo de ter engordado, "vou comer um pão com fiambre, são 45g, calma", mais segura e menos contrariada. Talvez se tivesse enfrentado ontem todos aqueles pensamentos, talvez tivesse sido o dia... quem quero enganar? Não há O dia, há escolhas, atrás de escolhas, come aqui, tira dali...
Tenho a certeza de que se perder 5kg me vou sentir muito melhor, tenho a certeza de que se perder 5kg vai ser exactamente a mesma coisa.
Nunca suficientemente cansada para desistir desta guerra, nunca suficientemente céptica para desistir de ficar bem.
Se havia dia para comer, teria sido ontem.
Mas ontem passou e eu não comi mais do que era permitido...
E hoje a fome é normal, daquela com que é possível conviver; é uma fome resignada, diz olá, não espera resposta. Como criança que sabe que não será consolada, não faz birras, não chora e não pede mais do que espera ter...
Lá andei, não tanto quanto queria, mas muito mais do que esperei que conseguisse...
Ontem esta vida que escolhi foi particularmente dura: não me apetecia fazer o exame em jejum, não me apetecia andar km e km com a mochila pesadissima, o calor, a fome, tudo aquilo que sabia que não era para acabar ali, mas para continuar "para sempre"...
Custava-me o cansaço, tudo me doía. E permiti-me sentar... E quando me sentei, chorei as lágrimas que a fluoxetina deixa (poucas). E não passou...
Mas hoje acordei com medo de ter engordado, "vou comer um pão com fiambre, são 45g, calma", mais segura e menos contrariada. Talvez se tivesse enfrentado ontem todos aqueles pensamentos, talvez tivesse sido o dia... quem quero enganar? Não há O dia, há escolhas, atrás de escolhas, come aqui, tira dali...
Tenho a certeza de que se perder 5kg me vou sentir muito melhor, tenho a certeza de que se perder 5kg vai ser exactamente a mesma coisa.
Nunca suficientemente cansada para desistir desta guerra, nunca suficientemente céptica para desistir de ficar bem.
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