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domingo, 25 de novembro de 2018

Sonhei que estava no supermercado, descalça. Tinha duas preocupações: comprar comida e encontrar os meus sapatos (não podia aparecer naquela figura na faculdade).
Comprei a comida, encontrei outros sapatos. 
O caminho foi feito a fugir. 
A querer voltar para a "minha" casa, mas as casas que têm gente nunca são minhas...
Entrei num autocarro onde estavam as pessoas que não gosto de encontrar em vida.
Saí do autocarro, senti o vento de campolide, quis dar um passo em frente...
Acordei

quarta-feira, 27 de junho de 2018

caretos

Tinha um cabelo de fazer inveja. De resto, o seu aspecto era cómico.
Não parecia homem nem parecia mulher; parecia alguém mascarado e, não só por isso, dava nas vistas.
Não queria ser discreto, falava mais alto do que era necessário; exibia a figura, como adolescente, acabada de se descobrir...
As unhas, cor-de-lilás; os jeans, justos ao corpo; a blusa, bonita e caída.
Era um homem bonito, aliás. Magro, alto, definido, com feições correctas, rosto angular, característica tão tipicamente masculina. Não queria esconder-se e fazia por ser visto, com uma confiança que oscilava entre fingida e desejada...

Ninguém se incomodou, entre a indiferença e a tolerância.
Acho que ele se sentia mais mulher do que alguma vez me sentirei...seja lá o que isso for...Aquilo que ele traz por fora é o que eu sinto por dentro: alguém mascarado...



quinta-feira, 21 de junho de 2018

repeat

Não come, come, descome, anda, laxante, lesão, o pé, a anca, as costas, anti-inflamatório, analgésicos, com receita, sem receita. Estômago que se queixa. Enfartamento, fome, enjoo, náusea, vómito, hipoglicemias,  Bradicardia, unha encravada, unha preta, Coimbra nocturna, caimbra diurna,

Saturação, pensar em círculo, gastar palavras que repito. Medo, cansaço, medo, dito, sentido, gasto, nunca extinto...

Que desgaste...
Não luto, mas resisto. Depois cedo, depois mudo, agora sim, agora nunca, agora...nim.

Sono sem vontade de dormir, acordar para fazer 25km. Calor, mochila, eliminar as banhas, repor a ordem no universo (o mais pequeno e narcisico, cápsula cilíndrica com 47 de raio para a anca ter lugar...).

Preparar-me para nunca estar pronta, recomeçar, sem angústia, mas com pressa, que ninguém me obriga, mas o tempo é tempo para o excesso se espalhar no corpo é preciso de dissipa-li o quanto antes, sem dar tempo de ajustamento, sem que a barriga redonda se transforme em cm/s distribuídos.

Amanhã vai haver mais de vida, não me deixo vencer assim..,

terça-feira, 12 de junho de 2018

ambiguidade

Ontem arranquei a "compensação" a ferros. Tinha fome, maior que o habitual, insistente, carente, chata. Tinha uma fome que implorava para não ser ignorada, o que me irritou ainda mais e me fez resistir, ainda mais, a honrá-la...

Se havia dia para comer, teria sido ontem.
Mas ontem passou e eu não comi mais do que era permitido...
E hoje a fome é normal, daquela com que é possível conviver; é uma fome resignada, diz olá, não espera resposta. Como criança que sabe que não será consolada, não faz birras, não chora e não pede mais do que espera ter...

Lá andei, não tanto quanto queria, mas muito mais do que esperei que conseguisse...
Ontem esta vida que escolhi foi particularmente dura: não me apetecia fazer o exame em jejum, não me apetecia andar km e km com a mochila pesadissima, o calor, a fome, tudo aquilo que sabia que não era para acabar ali, mas para continuar "para sempre"...

Custava-me o cansaço, tudo me doía. E permiti-me sentar... E quando me sentei, chorei as lágrimas que a fluoxetina deixa (poucas). E não passou...

Mas hoje acordei com medo de ter engordado, "vou comer um pão com fiambre, são 45g, calma", mais segura e menos contrariada. Talvez se tivesse enfrentado ontem todos aqueles pensamentos, talvez tivesse sido o dia... quem quero enganar? Não há O dia, há escolhas, atrás de escolhas, come aqui, tira dali...

Tenho a certeza de que se perder 5kg me vou sentir muito melhor, tenho a certeza de que se perder 5kg vai ser exactamente a mesma coisa.
Nunca suficientemente cansada para desistir desta guerra, nunca suficientemente céptica para desistir de ficar bem.




segunda-feira, 21 de maio de 2018

Tenho 24 anos. É domingo ou 2a-feira. É a segunda vez que vomito voluntária e involuntariamente esta semana. Numa casa-de-banho do cais do Sodré. Depois de subir a infante santo. Em frente à basílica da estrela. No largo do rato. Numa rua que desce para o príncipe real. Talvez em mais locais (não me lembro). Fiz 20km em 4h, com subidas e descidas. Algures no meio, pensei que ia passar a vergonha...quis telefonar a alguém. Havia, mas não servia. Escolher esta doença é escolher a responsabilidade de enfrentar sozinha as escolhas que faço sozinha, contra todos que ao contrário de mim, acreditam na cura. Tenho gente...e graças a Deus gente com quem posso falar da doença e com quem posso falar de outras coisas...mas enquanto segurava o cabelo com a mão esquerda, a direita encostada à árvore, alguém que me perguntava se estava grávida, se queria ir para a casa de banho, se me podiam chamar um táxi, senti uma solidão inexplicável...mas tive ainda mais medo de não dar tudo para colmatar o excesso.

Andei com vigor, sem uma lágrima. Escolhi...
Subi tanto quanto havia (era tarde para me perder em Monsanto...).
Chego nunca suficientemente cansada. Doi-me a garganta, a cabeça, sinto-me inchada, pesada, obesa...amanhã faço outros 20km e encho-me de água. Espero que os laxantes façam efeito antes de sair de casa. Preciso de me sentir livre e enquanto sinto a energia da comida acumulada, é como se não pudesse descansar, como se fosse cativa desse peso...

Haverá solidões mil vezes pior que esta. Há fome e guerra. Isto é apenas ma gestão do meu tempo, penso nos dias bons. Talvez esteja onde tenha de estar, nos como hoje, que me dei a esta merda...

Há uma perversidade particular quando deixa de ser um drama pessoal e se integra, qual terceira mao que não se estranha. Poderia ser sempre pior, é doença moderada. Vou sentir-me mt melhor quando perder 5kg e me libertar. Se me exceder, vomito. Se não me exceder...nunca chega.

Onde está o ganho? No tempo que não uso para outra coisa, no espaço que não tenho para outras pessoas, na dor completamente aniquilada por esta dormência espiritual... amanhã limpeza, andar e estudo. Só descanso se...



segunda-feira, 16 de abril de 2018

menos dez

É diferente, apesar de tudo. Diz que não faz mal. Desvaloriza-se. Vai-se andando, porque se "pode". Só se põe em causa porque é preciso defenda-la dos de fora, seja quem for (se "pode ser", porque é que é preciso mentir? E não se pensa mais, para não ter de agir em contrário...).
"Vou fazer" (nunca hoje, sempre amanhã). Condicional, por vezes; sem pensar, porque não é racional...
Ou sigo ou não sigo, uma ou outras, não perco tempo nos prós e contras.
"Tudo menos o descontrolo", penso. Vou almoçar fora no dia 27 e provavelmente vou ter de comer arroz na 5ª-feira. Vou e como, mas no que puder mandar, nem mais uma migalha. Porquê? Não sei, não tenho argumentos.