Não costumo dar parte fraca - assumir que o que resta da DCA não interfere na minha vida.
Mas há dias em que já não aguento fingir, em que queria mesmo acordar sem isto...
É sábado à tarde, aproveitei a casa vazia para ir «limpar o quarto» - acabei com um saco do lixo cheio de embalagens, restos, migalhas e pratas.
Limpei os forros das malas com um pano húmido; a sujidade entranhada que teimava em sair. Pendurei-as a secar. Olhar para elas convoca-me um tristeza que não quero comportar; deixo de olhar; finjo que não existe, que não fui eu, que não é em mim, que já passou e finalmente, que já não me importo que não tenha passado...
Chorei muito enquanto me despachava a encher o saco, é uma repetição extremamente dolorosa. Não poderia faze-lo em frente de alguem - não poderia explicar, sem ter falar na doença. Não poderia fazer isto se partilhasse o quarto, nem a vida, se houvesse crianças. Mas fa-lo-ia...e depois a consequência alastrava, já não era só a mim...
Já não me engano com promesas de que foi a última vez, quebradas, invariavelmente, no dia em que me apanho a repetir...e perco força, credibilidade e vontade...
Qual é a desculpa agora?
Cai a lágrima. Não a limpo porque estou sozinha.
O A. convidou-me para jantar e só de pensar no jantar...em mim, a fazer aquela refeição, como se prezasse mais a minha relação do que a minha perturbação, é uma traição imensa que não quero protagonizar. Odeio-o, secretamente, por isso.
Face a essa angústia. dou por mim com a mão nos biscoitos, no pão, no humus, na sopa, no que ainda há no frigorífico e que «posso» comer sem se dar por isso....outra vez. A promessa não durou uma hora. Doem-me os dentes, a boca, a cabeça, tudo.
Tenho um trabalho para fazer, um jantar e um quiz depois do jantar. Hoje detesto-os, detesto o que conquistei, o que me aconteceu, o que faço, quem sou, o ar que respiro.
Amanhã já passou.
