Páginas

sábado, 14 de dezembro de 2019

Não costumo dar parte fraca - assumir que o que resta da DCA não interfere na minha vida. 
Mas há dias em que já não aguento fingir, em que queria mesmo acordar sem isto...

É sábado à tarde, aproveitei a casa vazia para ir «limpar o quarto» - acabei com um saco do lixo cheio de embalagens, restos, migalhas e pratas. 

Limpei os forros das malas com um pano húmido; a sujidade entranhada que teimava em sair. Pendurei-as a secar. Olhar para elas convoca-me um tristeza que não quero comportar; deixo de olhar; finjo que não existe, que não fui eu, que não é em mim, que já passou e finalmente, que já não me importo que não tenha passado...

Chorei muito enquanto me despachava a encher o saco, é uma repetição extremamente dolorosa. Não poderia faze-lo em frente de alguem - não poderia explicar, sem ter falar na doença. Não poderia fazer isto se partilhasse o quarto, nem a vida, se houvesse crianças. Mas fa-lo-ia...e depois a consequência alastrava, já não era só a mim...

Já não me engano com promesas de que foi a última vez, quebradas, invariavelmente, no dia em que me apanho a repetir...e perco força, credibilidade e vontade...

Qual é a desculpa agora? 
Cai a lágrima. Não a limpo porque estou sozinha. 
O A. convidou-me para jantar e só de pensar no jantar...em mim, a fazer aquela refeição, como se prezasse mais a minha relação do que a minha perturbação, é uma traição imensa que não quero protagonizar. Odeio-o, secretamente, por isso. 

Face a essa angústia. dou por mim com a mão nos biscoitos, no pão, no humus, na sopa, no que ainda há no frigorífico e que «posso» comer sem se dar por isso....outra vez. A promessa não durou uma hora. Doem-me os dentes, a boca, a cabeça, tudo. 

Tenho um trabalho para fazer, um jantar e um quiz depois do jantar. Hoje detesto-os, detesto o que conquistei, o que me aconteceu, o que faço, quem sou, o ar que respiro. 

Amanhã já passou. 


segunda-feira, 28 de outubro de 2019

Viagem sem regresso

incomodamente me encontro a cometer os mesmos erros, inerte perante a hipótese de mudar.
Aliviada por regressar a mim, piquei os pés do outro lado ou então era só relva húmida, bastante para me assustar... não matava, não moía, só fazia sentir diferentemente...mas era preciso evitar. 

Em modo fuga, tirei o pé, fechei a porta, comi a chave.

Continuei a comer. 




sexta-feira, 28 de junho de 2019

«mas»

Não sei se preciso de escrever, mas faz-me falta. Por isso regresso.
Objectivamente,
Apesar de ter demorado 7 (!!!) anos a fazer a licenciatura e a ter concluído com uma média sofrível, consegui um estágio remunerado numa sociedade grande, no departamento da minha área de especialização, onde colegas com muito melhores qualificações (e conhecimentos) não entraram;

Fui expulsa de casa dos pais mas acolhida sem qualquer pergunta pela minha avó que me tem um amor enorme;

Os meus amigos, de quem me afastei durante anos, nunca me abandoram e convidam-me para eventos importantes das suas vidas: bapitzados, festas de anos, defesas de dissertação;

Tenho uma boa média de mestrado;

Estou tratada da depressão (que às vezes ainda penso que não tive...);

Sinto-me querida por todas as pessoas que continuam na minha vida;

Melhorei exponencialmente do distúrbio alimentar (só não digo que estou curada...porque ainda não estou);


MAS...


sábado, 15 de junho de 2019

A dor conhecida que se centra no peito.
Não a usei (espero) para fugir da minha.
Enquanto segurava no garrafão, disse-me que já não tinha idade para «isto»... Soube, instantaneamente, a que se referia. Abstive-me de comentar de que nenhuma  idade merece aquela dor...

No rosto sofrido, lágrimas por chorar.
Abriu o porta-bagagens, ajeitou o saco cheio e não aguentou mais, como nas tantas vezes em que antes de por a chave à porta, eu não aguentei...

Coloquei-lhe  a mão sobre as costas, depois no cabelo, lembrando-me de como os velhos gostam de ser tocados - como a minha mãe me ensinou - tal é a falta de afecto recebido a partir de certa idade...(medo de os partir, do cheiro, da distância)?

Agarrei-lhe a mão, como se não fosse estranha, como a minha avó fazia quando eu era pequenina.

Deixei-a cheia de dor.
Deixamo-nos conter tanta solidão...

quinta-feira, 13 de junho de 2019

Os passarinhos cairam

«Tenho saudades de ter uma compulsão»...Engoli em seco.

Há 10 anos, por esta altura, íamos de viagem... Rezámos antes de partir.
Ela de socas, calções curtos, tez morena, bonita, como só a ela... Eu, envergonhada, de jeans e t-shirt branca, a sentir-me obesa, a dobra da barriga sobre as calças... Na assento traseiro do carro, falávamos baixinho sobre o nosso peso e a nossa dieta. 

Nessa noite jantámos tomate cherry e cenoura ralada.

Durante essa semana, a minha primeira semana de trabalho, fizemos € 80. Gastei-os em comida.

2009, 2019.


domingo, 2 de junho de 2019

As meninas morreram

Éramos seis de bibes azuis escuros, algumas desabotoavam-nos para mostrar a roupa nova...

A instrução simples: abraçem-se e riam.

Eu olhei para onde não havia máquina (nunca gostei de ser fotografada), as outras cumpriram.

Quinze anos depois, duas são médicas; uma, assistente social; outra, engenheira, duas enlouqueceram e pouco fizeram das suas vidas e eu nem perdi todo o juízo, nem sou, ainda, advogada...

Nada naqueles rostos fazia prever o actual desfecho... A mais maria-rapaz arranjou um namorado pintor; a mais tímida casou no Verão passado, a mais dotada não sabe distinguir a realidade da fantasia...

Não sei o que representem estas lágrimas que teimam a escorrer, nem para que servem nem porque não param.



sexta-feira, 31 de maio de 2019

dor

Não gosto de ir àquela casa, nem de andar naquelas ruas nem de comprar o pão naquele sítio. Tudo me faz lemrar, as paredes, o cheiro, a gente.

Fiz-me muito infeliz lá.

Não aguentei muito tempo (já tinha passado antes no supermercado). Um pao com manteiga, um pacote de batatas fritas, dois pacotes de chocolates. E continuava, se mais houvesse e mais tempo eu tivesse antes de deixar de estar sozinha por fora...

As meninas morreram, os passarinhos caíram...


quinta-feira, 30 de maio de 2019

tudo o que procuraste fora de Mim só te deixou mais vazio

Fui à janela e quis o quarto andar fosse alto o suficiente, para só ter de passar as pernas para o lado de lá. Faria barulho a carcaça a embater contra o capô do mercedes do engenheiro do segundo andar e que não tem culpa nenhuma, mas carros suficientes para não lhe fazer prejuízo... 

Olhei em frente. Não se via.

Arrepio-me de frio com 30º lá fora, mas não quero sair. Sairei, no entanto, antes das 21h, hora de encerramento dos supermercados, porque continua a ser essa, infelimente, a minha vida...

A vida que tenho é a vida que aprendi a querer, para ser suportável, mas de vez em quando, cheira-me a outras vidas e conheço um pouco do que outros têm e quero mais...um pouco mais... 

Depois, percebendo que não é para mim, não é a minha casa, volto atrás, «para onde nunca devia ter sáido», diz-me... O outro terá sempre de distância e mistério e a vida, lá fora, sabor a ar fresco... Encho o peito desse ar que parece bom, nunca por muito tempo nem produndamente. 

A possibilidade mata-me a cada negação... Tanto temi que foi acontecendo...


segunda-feira, 29 de abril de 2019

IV

Havia uma mesa com cadeiras de estofo preto em redor. Nada por cima e ninguém sentado além de mim. Peguei na caneta e sobre o bloco emprestado escrevi acerca de um telefone que tocava insistentemente. 

Como se imagina naqueles metros quadrados que cheiram a desinfectante e à batata da sopa do almoço, que as obrigam a engolir, sem piedade, até ao fim? Cura-castigo, vida...

E se elas fossem pássaros?
Avezinhas feridas atrás desta gaiola aos quadradinhos cor-de-laranja e branco, onde apoio os cotovelos. Quadrados certos como os dos bibes que vestiram e mancharam...de vida...
As meninas morreram, os passarinhos cairam. 

Lá dentro corre uma arajem que faz bater as portas. E o telefone toca e ninguém parece importar-se. Está-se, mas não se espera... 

Assisto porque posso sair. 

terça-feira, 2 de abril de 2019

and the truth shall make you odd

Tive medo de sair e quando cheguei, não consegui ficar (aqueles dias em que não se está bem em lado algum, não há conforto em ir, nem em chegar, em ser. Respirar é aguentar...).

A cura já tem barbas: acordo, enfrento o peso e passo os dois meses seguintes a perder o que tenho a mais. E pelo menos então tenho o meu sentido de missão, o único que me faz manter o quarto arrumado, acordar às 8h, produzir, tomar banho com frequência superior à semanal, não fugir dos outros, com quem viverei, para sempre...

Acabam as idas ao supermercado e a comida debaixo da cama, das roupas, nos armários da casa-de-banho... acabam os ataques à despensa, ao frigorifico...As pratas nos sapatos, os pães nos bolsos de calças de fato-treino que não vão à máquina há meses... Volta o tempo de repor as poupanças que estoirei, como se pudesse... Não posso, mas permito-me. O meu estado compulsivo é de completa auto-condescendencia e irreflexão. Não me atrevo a fazer a conta, mas certamente, em 365 dias, milhares de euros...

Passo o pano, superficie que conjuga angulo e polimento, menos kg, mais confiança, que desaparece no segundo depois de ter subido à balança, mas que vale pelo segundo anterior em que foi minha, fui eu, "é meu"!

«Se eu fosse magra» transforma-se em quando «qando eu for magra», porque de tudo posso ter desistido na vida, mas disso não... antes dizia que ia morrer a tentar. Agora sei que viverei a tentar. É uma escolha.

Não penso muito nas consequências de manutenção deste padrão polar que me tirou e deu, à sua maneira, como qualquer caminho que se percorre em detrimento de outros...

A leve ideia, de há 8 anos, quando achei que me queria «tratar» é uma memória longinqua de adolescente dividida entre a vida com a doença e a morte sem ela. Já não tenho grande interesse nas consultas que foram muito importantes, mas que serviram o seu fim. Melhorei. Já não deprimo. 

Houve avanços que me facilitaram a vida na conclusao do curso, na média do mestrado, na entrada no mundo do trabalho...mas nada de magreza certa. E eu acho que já a mereço, porque de tudo farei para a merecer. 

Passaram-me a tristezas de fim do mundo, estou no mundo. 25 anos. 
Não me interessa se valeu a pena. 

domingo, 3 de fevereiro de 2019

Este não sei quê...
Chamei-lhe falta de Deus por inteiro.
Chamei-lhe falta de magreza de verdade.
Deixei de o sentir quando enchia a minha vida de doença e podridão, em frente à basílica da Estrela, no cais do sodré, no largo do Rato...
Está aqui porque falta.
Não sei o que fazer comigo.