Chamou-me à beira da cama para me perguntar se estávamos sobre a água e se íamos para as caraíbas. Disse-lhe que estava a recuperar de uma operação ao joelho, que ela estava deitada e eu de pé, que tinha uns olhos bonitos, azuis, como eu sempre quis ter. Pediu-me desculpa por estar confusa. Disse-lhe que todos estamos. Disse-me que não se olhava ao espelho, não sabia se eram azuis ou verdes, que os pobres não tinham tempo para isso. Voltou atrás, reformulou. Éramos seis irmãos, sabe, menina? Mas eu era a única me nunca me olhava ao espelho. Penteava-me com a mão. Se são azuis nunca vi.
Entretanto a minha avó quis que lhe limpasse a dentadura e eu deixei a senhora, entre a realidade vivida e imaginada. Pediu-me desculpa, que sabia ser uma tarefa desagradável. Para isso tenho sempre resposta pronta: até aos quatro anos nunca limpei o rabo e não tenho memória de assaduras. Riu-se.
Só precisei de nascer para ser amada.
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