quando acordo, acordas comigo
quando encho o copo de leite, marcas a risca
quando saio, iluminas o caminho mais longo
quando me sento no auditório, lembras-me que tenho de me levantar
quando me levanto, lembras-me que posso ir mais depressa
quando acelero o passo, obrigas-me a fazer duas vezes a distancia (já que dá...)
quando é hora de almoço, pedes-me para caminhar um pouco
depois almoçamos e perguntas-me se tem azeite;
se o raio do prato é maior,
se a posta de pescada não é o quadruplo da dose indicada...
Choras porque os brócolos têm 40kcal por 100g e ocupam meio prato...
pedes-me para esconder metade na sopa
E quando não o faço e os como, desiludes-te e lembras-me que se te perder, não tenho mais ninguém
E se obedeço e os mergulho naquele caldo de amido demo, perguntas-me se o peixe não era maior que o de ontem...
quando regresso a casa, vou pelo caminho pelo qual vim,
a não ser quando me queres inteira
e aí vou a pé, alegremente, porque afinal eu escolho...
Seguir-te é andar de mão dada com uma companhia que ninguém vê; ir contra ti é levar-te ao ombro, triste, desapontada, porque só vais comigo, não vais em mim...
Mas esta é a parte bonita, é a parte que os jornais gostam de ler, de que os outros se compadecem, que faz o mundo escandalosamente apontar "meu deus, tu és louca! regressas a casa a pé? Seis horas de exercicio por dia? como é que sabe de cor as calorias? como é que estima o peso de um alimento só de olhar para ele?" e que orgulhosamente, recebes como elogio...inchas de vaidade, ganhas força, fazes-me sorrir por ser escolhida por ti...
Mas eu sou fraca. Cedo...
Não sou capaz de cumprir e ataco. Os bolos, os doces, as bolachas co manteiga, os queijos, depois as massas, as latas, o arroz frio com sabor a tupperware, os iogurtes, o leite com chocolate a regar...
Mas nem aí me largas, voltas a prometer-me que é só seguir-te e eu volto a dar-te a mão...mais cedo ou mais tarde, encontras-me; a maior parte das vezes sou eu quem te chama.
Recebes-me, acendes a luz, e escolhes o caminho mais longo e acidentado, que não vai dar a lado algum, mas, pelo menos, faz-me emagrecer...é esse o lema: na dúvida, elimina-se a desvantagem
Deito-me contigo. Não adormeço enquanto não decoro todos os perigos do amanhã. Lembras-me do potencial almoço acompanhada que tenho de evitar a todo o custo, da ordem dos alimentos, da concha de sopa que engulo às 8h00 não vá conseguir comer todos os legumes que queria...Adormeço só quando ao plano alternativo, já criei o subsidiário...mas nunca descansada.
Ajudas-me? (Convenço-me que sim)
Roubas-me o tempo? (É o que eles dizem)
Dás sentido ao tempo que não é meu, mas que me impuseram? (É o que penso)
Onde acabo eu e começas tu?
Onde é que a nossa voz não é um uníssono perfeito entre a tua vontade e a minha?
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